
A confirmação de um episódio de El Niño para os próximos meses deve ser encarada como um fator de planejamento técnico, e não como motivo para decisões precipitadas no campo. A avaliação é do agrometeorologista e sócio-fundador da Rural Clima, Marco Antônio dos Santos, durante o 8º Fórum Café e Clima Cooxupé, realizado nesta quarta-feira (29), em Guaxupé (MG).
Segundo o especialista, os modelos climáticos indicam 100% de probabilidade de formação do fenômeno e cerca de 80% de chance de que ele alcance intensidade forte, com anomalias superiores a 2°C na temperatura da superfície do Oceano Pacífico. No entanto, ele pondera que esse cenário não sustenta interpretações catastróficas que têm circulado no setor.
Para Santos, a principal preocupação do produtor não deve ser a intensidade do fenômeno em si, mas a adoção de estratégias agronômicas capazes de reduzir seus impactos sobre a produção. O uso de informações meteorológicas aliado ao planejamento do manejo, da irrigação, da nutrição e das demais práticas de campo tende a ser mais determinante para o desempenho das lavouras do que o fenômeno climático isoladamente.
O meteorologista também contestou projeções que sugerem aquecimento de até 4,5°C no Pacífico, argumentando que essas estimativas decorrem de simulações pontuais. De acordo com a Rural Clima, análises estatísticas baseadas em múltiplos modelos apontam um aquecimento entre 2,5°C e 3°C, caracterizando um El Niño forte, porém dentro de padrões já observados historicamente.
Como base para a projeção, a empresa comparou a evolução das temperaturas do Oceano Pacífico registrada entre janeiro e julho deste ano com os 28 episódios de El Niño catalogados desde meados do século passado. Os eventos de 1997/98 apresentaram a maior similaridade estatística com o cenário atual, seguidos pelos registrados em 2023/24 e 1982/83. Já o episódio de 2015/16, frequentemente utilizado como referência, não apresentou correlação significativa com as condições observadas neste ciclo.
Na avaliação do especialista, a mensagem central para o setor produtivo é que a gestão do risco climático deve estar baseada em dados, modelos consolidados e recomendações técnicas, evitando decisões pautadas por cenários extremos. Em um ambiente de maior variabilidade climática, a capacidade de adaptação e o manejo eficiente permanecem como os principais instrumentos para preservar a produtividade e reduzir riscos nas propriedades rurais.
Por: Amanda Coelho
