
A crise do crédito rural no Brasil vai além da falta de recursos. Para a Aprosoja Brasil, um dos principais entraves está nas exigências de garantias feitas pelas instituições financeiras, que dificultam o acesso dos produtores ao financiamento e aumentam a pressão sobre o caixa das propriedades.
O presidente da entidade, Lucas Costa Beber, defende que o fundo garantidor criado pela Medida Provisória nº 1.376/2026 seja ampliado. A proposta atual está voltada principalmente à renegociação de dívidas de produtores afetados por eventos climáticos e pela queda de preços, mas, na avaliação da Aprosoja, poderia também reduzir o risco das novas operações para os bancos.
Na prática, um fundo mais abrangente poderia facilitar a apresentação de garantias e ampliar o acesso dos produtores às linhas do Plano Safra, especialmente em um momento de juros elevados e maior seletividade das instituições financeiras.
Seguro rural é outro ponto crítico
A discussão também expõe uma fragilidade histórica do agronegócio brasileiro: a baixa cobertura do seguro rural.
Segundo Beber, mais de R$ 400 milhões dos R$ 1 bilhão previstos para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) foram contingenciados. O resultado é uma cobertura ainda pequena diante da dimensão da agricultura brasileira.
Enquanto nos Estados Unidos cerca de 90% da área das principais culturas conta com seguro, no Brasil menos de 4% da área de soja é protegida.
Para a Aprosoja, uma política de seguro rural estável e de longo prazo ajudaria a reduzir riscos, dar previsibilidade ao produtor e também aumentar a segurança das instituições financeiras nas operações de crédito.
Plano Safra precisa chegar ao produtor
Outro alerta envolve o Plano Safra 2026/27. Embora o governo tenha anunciado R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, a Aprosoja questiona quanto desse montante efetivamente chegará ao custeio e à comercialização.
Os recursos destinados a essas duas finalidades caíram de R$ 414 bilhões para R$ 384 bilhões, enquanto houve crescimento nas linhas de investimento, incluindo recursos livres.
Para a entidade, o aumento nominal do Plano Safra não significa necessariamente maior disponibilidade de crédito, especialmente diante da inflação, dos juros elevados e do encarecimento dos insumos.
A preocupação ganha peso com a proximidade do plantio da nova safra. Em Mato Grosso, por exemplo, parte dos produtores ainda não adquiriu fertilizantes, diante da combinação entre custos elevados e dificuldade de financiamento.
Crédito será decisivo para a próxima safra
O debate sobre o fundo garantidor ocorre, portanto, em um momento estratégico para o campo. Com o custo do dinheiro elevado e maior dificuldade para acessar recursos, ampliar as garantias pode ser uma ferramenta para destravar financiamentos e evitar que produtores reduzam investimentos por falta de capital.
Para a Aprosoja Brasil, o foco da próxima safra deve estar não apenas na produtividade, mas na sustentabilidade econômica das propriedades.
Nesse cenário, medidas que reduzam o risco das operações, fortaleçam o seguro rural e garantam crédito de forma antecipada podem ser decisivas para preservar a capacidade de investimento do produtor e manter o ritmo de produção do agronegócio brasileiro.
Por: Redação Caderno Agro
