
A citricultura brasileira enfrenta uma combinação pouco comum de problemas: menor oferta de laranja, preços elevados do suco e queda no consumo global. O resultado já aparece no comércio exterior, com o Brasil mantendo praticamente o mesmo volume exportado, mas registrando forte redução na receita.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior compilados pela CitrusBR, o país exportou 746,9 mil toneladas de suco na safra 2025/26, volume semelhante ao ciclo anterior. O faturamento, porém, caiu 30,5%, passando de US$ 3,42 bilhões para US$ 2,37 bilhões.
Para Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR, o setor atravessa um momento em que clima, geopolítica e poder de compra do consumidor se encontram em uma mesma crise.
Preço alto afasta consumidor
A origem do problema está nas fortes perdas registradas nos pomares entre 2022 e 2024. Períodos de calor intenso, estiagens e, principalmente, o avanço do greening reduziram a oferta de laranja e levaram o suco às maiores cotações de sua história na Bolsa de Nova York.
O contrato chegou a US$ 5,49 por libra-peso. Atualmente, está próximo de US$ 1,40.
Apesar da queda nas cotações internacionais, os preços elevados das safras anteriores chegaram ao consumidor e provocaram mudanças no comportamento de compra.
Segundo a CitrusBR, o preço do suco no varejo subiu mais de 20%. A entidade aponta que, para cada 1% de aumento no preço, o consumo tende a recuar pelo menos 1%.
O impacto já aparece nos estoques. Em dezembro de 2025, as empresas associadas à CitrusBR tinham 616,46 mil toneladas de suco, em equivalente FCOJ a 66° Brix, alta de 75,4% sobre as 351,48 mil toneladas registradas um ano antes.
Em outras palavras, enquanto a oferta de fruta foi reduzida pelos problemas no campo, a demanda pelo produto industrializado também perdeu força.
Geopolítica aumenta os custos
Além do comportamento do consumidor, a citricultura enfrenta pressão pelo lado dos custos.
Os conflitos entre Rússia e Ucrânia e entre Estados Unidos e Irã contribuíram para elevar preços de petróleo, fertilizantes e transporte, aumentando as despesas ao longo da cadeia produtiva.
No Brasil, a taxa Selic em 14% ao ano também representa um obstáculo para produtores e empresas que precisam financiar operações e investimentos.
O cenário financeiro se soma aos problemas enfrentados por diferentes segmentos do agronegócio. No primeiro semestre de 2026, 1.263 CNPJs de agricultores estavam em recuperação judicial, segundo levantamento das consultorias RGF e Bizdoc. O número representa crescimento de 21,4% em relação ao fim de 2025.
Setor precisa recuperar o consumidor
A crise atual tem uma característica diferente dos períodos de baixa oferta. O problema não está apenas na produção, mas na capacidade de manter o consumidor diante de preços mais altos.
O suco de laranja disputa espaço nas prateleiras com refrigerantes, chás e outras bebidas, o que aumenta a necessidade de competitividade para recuperar o consumo.
Para a indústria brasileira, maior produtora e exportadora mundial, o desafio passa por equilibrar oferta, preços e demanda em um mercado internacional que mudou rapidamente.
A citricultura chega, assim, a um ponto decisivo: depois de enfrentar anos de clima adverso, greening e oferta restrita, o setor agora precisa lidar com o efeito dos preços elevados sobre o próprio consumidor. O próximo ciclo será fundamental para medir se a recuperação da produção conseguirá acompanhar a retomada da demanda.
Por: Redação Caderno Agro
