Crise do Habib’s expõe risco que também preocupa o agro: quando o comprador não paga, a conta chega à porteira

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Uma dívida de cerca de R$ 70 milhões com empresas ligadas ao agronegócio colocou o Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall, no radar de frigoríficos e outros fornecedores de alimentos.

O grupo entrou em recuperação judicial nesta semana com uma dívida total de aproximadamente R$ 265,2 milhões. Entre os credores estão empresas como JBS, Seara, Bunge, De Marchi, Laticínios Porto Alegre e outros fornecedores de carnes, óleo de soja, verduras, legumes e alimentos processados.

O caso chama atenção não apenas pelo tamanho da dívida, mas pelo efeito que uma crise no varejo e no setor de alimentação pode provocar sobre toda a cadeia produtiva.

Quando um restaurante deixa de pagar um fornecedor, o problema não termina na indústria. O frigorífico sente o impacto, o distribuidor é pressionado e, em última instância, o produtor rural também pode ser afetado.

O agro também vira credor

A situação do Grupo Gennius mostra uma das vulnerabilidades da cadeia de alimentos: o produtor e a indústria podem estar financeiramente saudáveis, mas ainda assim sofrer com a inadimplência de quem está na ponta da comercialização.

Para frigoríficos e demais fornecedores, uma grande rede de restaurantes representa volume e previsibilidade de vendas. Quando esse cliente entra em recuperação judicial, entretanto, parte dos valores devidos pode ficar sujeita ao plano de pagamento aprovado pela Justiça.

Segundo especialistas, a recuperação judicial não significa que os fornecedores essenciais simplesmente possam interromper o abastecimento. A legislação prevê mecanismos para preservar a atividade da empresa durante o processo.

Isso cria um desafio adicional: o fornecedor precisa continuar entregando, enquanto tenta proteger o recebimento de valores antigos e reduzir o risco de novas perdas.

E o produtor rural?

Embora o caso envolva diretamente grandes empresas de alimentos, o episódio deixa uma lição importante para quem está dentro da porteira.

A cadeia do agro é longa e interligada. Uma crise financeira no restaurante, no supermercado, na indústria ou no distribuidor pode se transformar em um problema de caixa muito antes de chegar ao produtor.

Por isso, vender bem não significa apenas conseguir um bom preço. É preciso também avaliar para quem se está vendendo e qual é a capacidade financeira do comprador.

Na pecuária, por exemplo, concentração de compradores e dependência de poucos frigoríficos já são temas recorrentes. Na agricultura, o mesmo cuidado vale para tradings, cerealistas, cooperativas e indústrias que compram grandes volumes.

O alerta vale para Mato Grosso do Sul

Em Mato Grosso do Sul, onde a produção de carne bovina, soja, milho e outras commodities tem forte participação na economia, a saúde financeira dos diferentes elos da cadeia é fundamental.

Para o pecuarista, a recomendação é acompanhar não apenas a cotação da arroba, mas também as condições de pagamento, histórico do comprador e concentração das vendas.

Produtores e empresas que trabalham com contratos de fornecimento também devem avaliar prazos, garantias e mecanismos de proteção contra inadimplência.

Cooperativas e associações podem desempenhar papel importante nesse processo, ampliando o poder de negociação e ajudando pequenos e médios produtores a reduzir a dependência de um único comprador.

Recuperação judicial não significa fim da empresa

É importante destacar que entrar em recuperação judicial não significa necessariamente que o Habib’s ou as demais marcas deixarão de operar.

O objetivo da recuperação é justamente permitir que uma empresa em dificuldade reorganize suas dívidas e mantenha suas atividades. No caso do Grupo Gennius, a continuidade dependerá da recuperação do caixa, da implementação de mudanças internas e da aprovação e cumprimento do plano apresentado aos credores.

Para os fornecedores do agro, entretanto, o caso serve como alerta.

Crédito também é um risco de produção. E, em uma cadeia que movimenta bilhões de reais, a dificuldade financeira de um grande comprador pode rapidamente se espalhar para outros elos.

A lição para o campo é direta: diversificar compradores, conhecer a saúde financeira dos parceiros comerciais e estabelecer contratos mais seguros são medidas tão importantes quanto controlar custos, produtividade e preço de venda.

No agronegócio, não basta produzir e vender. É preciso ter segurança de que o dinheiro vai voltar para a propriedade.

Por: Fabíola Camilo