
O futuro da produção de leite no Brasil passa por uma conta que o produtor de Mato Grosso do Sul conhece bem: produzir mais, gastar menos e encontrar mão de obra para manter a atividade competitiva.
Esses desafios estiveram no centro do workshop “Desafios para o leite brasileiro nos próximos dez anos”, realizado pela Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora (MG), com participação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e de representantes de diferentes elos da cadeia.
O encontro reuniu produtores, pesquisadores, técnicos, indústrias, cooperativas e especialistas para discutir quais devem ser as prioridades da pesquisa brasileira para a próxima década.
Entre os principais pontos estão redução dos custos de produção, aumento da receita, disponibilidade de mão de obra, ganho de escala, gestão dos recursos hídricos e aumento da competitividade.
São questões que também fazem parte da rotina da pecuária leiteira sul-mato-grossense.
Para MS, produtividade será cada vez mais importante
Mato Grosso do Sul possui espaço para ampliar a produção de leite, mas o crescimento da atividade dependerá cada vez menos apenas do aumento do número de animais e mais de eficiência dentro da propriedade.
Controle de custos, melhoria genética, alimentação adequada, manejo, sanidade e gestão financeira podem determinar a diferença entre uma propriedade que consegue permanecer competitiva e outra que abandona a atividade.
O desafio é ainda maior para produtores que trabalham em menor escala e têm dificuldade para diluir custos com máquinas, equipamentos, assistência técnica e mão de obra.
Nesse cenário, a organização dos produtores por meio de cooperativas e associações pode ganhar importância, permitindo compras conjuntas, maior poder de negociação e acesso a tecnologias.
Mão de obra é um dos grandes gargalos
A falta de trabalhadores qualificados também preocupa o setor.
A atividade leiteira exige acompanhamento praticamente diário e não permite que a propriedade simplesmente pare por alguns dias. Encontrar pessoas preparadas para trabalhar no campo, além de manter as novas gerações interessadas em permanecer na atividade, tornou-se um desafio estratégico.
Para Mato Grosso do Sul, onde outras atividades do agro apresentam forte expansão e disputam mão de obra com a pecuária, esse problema tende a ganhar ainda mais importância.
A mecanização e a automação podem ajudar, mas exigem investimento e conhecimento técnico.
Água e gestão também entram na conta
Outro ponto levantado no encontro foi a gestão dos recursos hídricos.
A produção de leite depende diretamente da disponibilidade e da qualidade da água, tanto para os animais quanto para os processos de limpeza e manejo.
Em um cenário de mudanças climáticas e maior ocorrência de períodos de estiagem, melhorar o uso da água deixa de ser apenas uma preocupação ambiental e passa a ser também uma questão econômica.
Para o produtor sul-mato-grossense, planejamento de reservatórios, conservação de solo e água e tecnologias que reduzam desperdícios podem contribuir para dar maior segurança à produção.
Competitividade precisa ir além da porteira
A CNA defendeu durante o workshop a criação de novas ferramentas de gestão de risco, redução do chamado “Custo Brasil” e investimentos em pesquisas capazes de produzir soluções mais eficientes para a cadeia.
O objetivo é preparar o setor para competir não apenas no mercado interno, mas também ampliar sua capacidade de disputar espaço no mercado internacional.
Para o produtor de MS, isso significa que a competitividade do leite não será definida apenas pelo preço recebido por litro. Custos de energia, ração, fertilizantes, medicamentos, logística, crédito e impostos também entram na conta.
Quanto maior a eficiência de toda a cadeia, maior a possibilidade de o produtor permanecer na atividade com margem.
Uma agenda para os próximos dez anos
Ao final do encontro, 53 instituições ligadas ao setor agropecuário assinaram a Carta de Juiz de Fora, documento que reúne propostas e compromissos para orientar o desenvolvimento da cadeia leiteira na próxima década.
A discussão mostra que o futuro do leite brasileiro será construído muito antes de chegar ao laticínio.
Para Mato Grosso do Sul, a mensagem é clara: existe espaço para crescer, mas o avanço dependerá de tecnologia, gestão, organização dos produtores e capacidade de enfrentar custos cada vez maiores.
O leite do futuro será mais eficiente, mais tecnológico e, principalmente, mais profissionalizado. E quem começar essa transformação agora poderá estar melhor preparado quando os próximos dez anos chegarem.
