Boi gordo entre China, escalas confortáveis e expectativa de alta para o fim do ano

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O mercado do boi gordo atravessa setembro dividido entre dois movimentos: de um lado, frigoríficos ainda trabalham com escalas relativamente confortáveis e seguram novas altas; de outro, o mercado começa a enxergar espaço para valorização da arroba mais adiante, especialmente diante da possibilidade de retomada das compras chinesas.

Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, os preços começaram agosto aquecidos, mas perderam força ao longo do mês com a maior presença de animais de parceria e o uso de confinamentos próprios por grandes frigoríficos. Mesmo assim, a média das principais praças terminou agosto acima do fechamento de julho.

Em 31 de agosto, o boi a prazo estava cotado a R$ 345 em Mato Grosso do Sul, em Dourados, alta de 3% sobre os R$ 335 registrados no fim de julho. Goiás e Minas Gerais encerraram o mês em R$ 335, enquanto São Paulo ficou em R$ 345. Mato Grosso fechou em R$ 330 e Rondônia, em R$ 333.

Para setembro, Iglesias vê possibilidade de avanço da arroba, apoiada principalmente pelo mercado externo. A flexibilização temporária das tarifas norte-americanas para um volume de 300 mil toneladas pode favorecer as vendas de cortes dianteiros brasileiros aos Estados Unidos.

O cenário, porém, tem um freio importante: a suspensão dos embarques brasileiros de carne bovina para a União Europeia a partir de 3 de setembro, em razão de mudanças nas normas sanitárias relacionadas ao uso de antimicrobianos.

China reduz compras e muda o fluxo das exportações

O principal ponto de atenção continua sendo a China. O preenchimento da cota de importação estabelecida pelo país provocou forte redução dos embarques brasileiros em agosto.

Dados da Secex mostram que as exportações de carne bovina para a China caíram 80,5% em relação a julho e 89,8% na comparação com agosto de 2025. No início de agosto, o governo chinês informou que cerca de 90% da cota destinada ao Brasil já havia sido preenchida.

Com a retração do principal mercado, as exportações brasileiras totais também recuaram. Foram embarcadas 226,777 mil toneladas em agosto, queda de 12,1% frente a julho e de 23,2% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Outros destinos, entretanto, ampliaram as compras, entre eles Emirados Árabes Unidos, Itália e Rússia. Para pesquisadores do Cepea, esse movimento mostra a capacidade brasileira de redirecionar parte da oferta, embora a redução dos embarques para a China represente um fator de pressão sobre o mercado caso as restrições se prolonguem.

Arroba pode ganhar força no fim do ano

No mercado físico, a quarta-feira (9) foi de preços acomodados. A avaliação de Iglesias é de que as escalas de abate ainda oferecem conforto, principalmente para os grandes frigoríficos.

Enquanto isso, os contratos futuros na B3 apresentam preços significativamente acima do mercado físico, sinalizando expectativas mais otimistas para os próximos meses. Especulações sobre uma possível antecipação da retomada da cota chinesa também deram força às negociações, embora a viabilidade logística dessa operação seja considerada baixa diante dos custos adicionais.

A expectativa mais consistente está concentrada no fim do ano. Com a aproximação do período de negociação da cota chinesa para 2027, frigoríficos podem voltar ao mercado para formar estoques destinados ao país asiático, aumentando a disputa pela matéria-prima.

No atacado, os preços ficaram estáveis ou recuaram em agosto, pressionados pela concorrência de outras proteínas, especialmente frango e ovos. O quarto traseiro encerrou o período a R$ 26,50 por quilo, enquanto o dianteiro ficou em R$ 20.

Para a primeira quinzena de setembro, a expectativa é de alguma recuperação dos preços dos cortes, favorecida pela entrada dos salários e pela tradicional melhora do consumo. Ainda assim, a concorrência com proteínas mais baratas e a ausência de datas comemorativas relevantes devem limitar uma reação mais forte da demanda.

Assim, o mercado pecuário entra em setembro sem espaço para uma disparada imediata da arroba, mas com fatores que podem mudar o equilíbrio nos próximos meses. Entre eles estão o desempenho das vendas aos Estados Unidos, a evolução das exportações para outros mercados e, principalmente, o momento em que a China voltar a disputar novamente a carne brasileira.