Pesquisa da Embrapa aponta El Niño mais intenso e alerta para riscos às lavouras do Cerrado

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No Cerrado, o céu dita boa parte do calendário de quem planta. Quando a chuva atrasa, falha ou desaparece por semanas no momento errado, a conta pode chegar em forma de perda de produtividade. E os sinais observados no Oceano Pacífico acenderam um alerta: o El Niño ganha força e pode aumentar os riscos para a agricultura brasileira.

O Índice Oceânico Niño (ION), um dos principais indicadores utilizados para acompanhar o fenômeno, chegou a +1,4°C em junho de 2026, segundo dados citados pelo pesquisador Fernando Macena, da Embrapa Cerrados. Foi o segundo mês consecutivo acima do limite de +0,5°C que caracteriza a fase quente do fenômeno.

Projeções analisadas pela Embrapa apontam ainda para a possibilidade de anomalias superiores a +2,5°C no Pacífico tropical, cenário que poderia caracterizar um El Niño de grande intensidade.

Para as lavouras do Cerrado, o problema não está apenas na quantidade de chuva, mas principalmente em quando ela chega. O fenômeno pode provocar atraso no início da estação chuvosa, veranicos durante fases críticas das culturas e redução da janela para o plantio da segunda safra.

Na prática, um atraso na primeira safra pode empurrar o calendário do milho, sorgo ou algodão safrinha para períodos de maior risco de estiagem. O resultado pode ser menor produtividade e perda de parte do capital investido pelo produtor.

Planejamento para reduzir o risco

Diante de um cenário climático que não pode ser controlado, a estratégia passa a ser reduzir a exposição das lavouras. É nesse ponto que o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) ganha importância.

Desenvolvido pela Embrapa e instituições parceiras, sob coordenação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Zarc combina séries históricas de clima, características do solo e informações das culturas para indicar períodos de semeadura com diferentes níveis de risco.

A ferramenta considera 44 culturas e estabelece faixas de risco de perdas de 20%, 30% e 40% para os municípios brasileiros. Além de orientar o planejamento da produção, o Zarc é utilizado como referência para acesso ao crédito rural e ao seguro agrícola.

Para Macena, a questão não é tentar prever o clima com precisão absoluta, mas transformar a informação disponível em decisões antecipadas.

“A sustentabilidade e a rentabilidade dependem da capacidade de resposta técnica e planejada”, afirma o pesquisador.

Associado a práticas de conservação do solo, manejo adequado e acompanhamento da evolução da estação chuvosa, o zoneamento pode ajudar o produtor a tomar decisões mais seguras diante de um cenário de maior volatilidade climática.

No campo, onde não é possível escolher o clima, antecipar decisões pode ser a diferença entre apenas reagir às adversidades e estar preparado para elas.

Por: Adriana Candido de Castro