
A soja ocupa uma área cada vez maior em Mato Grosso do Sul, mas o avanço do plantio para a safra 2026/27 começa cercado por um cenário menos favorável em produtividade e produção. A semeadura do novo ciclo tem início nesta quarta-feira (16), e a primeira projeção da Aprosoja/MS aponta para 4,874 milhões de hectares cultivados no Estado, crescimento de 5,5% em relação à temporada anterior.
O aumento da área, porém, não deve se traduzir inicialmente em maior volume colhido. A estimativa da entidade é de produtividade média de 52,4 sacas por hectare e produção de 15,331 milhões de toneladas. Se confirmados, os números representam queda de 13,2% na produtividade e de 8,4% na produção em comparação com a safra 2025/26.
No ciclo anterior, Mato Grosso do Sul cultivou 4,6 milhões de hectares de soja, com produtividade média de 60,4 sacas por hectare e produção de 16,7 milhões de toneladas.
A diferença entre o crescimento da área e a redução da produção coloca o desempenho por hectare no centro das atenções para a nova temporada. Para a Aprosoja/MS, a estratégia passa menos pela expansão da área e mais pela capacidade de extrair eficiência das áreas que já estão inseridas no sistema produtivo.
O coordenador técnico da entidade, Gabriel Balta, afirma que o cenário exige planejamento desde as primeiras decisões da safra, especialmente diante de um ambiente de maior restrição ao crédito.
“O produtor precisa olhar para cada hectare de forma estratégica. Em um cenário de maior dificuldade de acesso ao crédito, eficiência não é apenas buscar mais produtividade, mas também produzir com racionalidade, aproveitando melhor os recursos disponíveis e tomando decisões baseadas em planejamento e acompanhamento técnico”, afirma.
Produtividade passa a pesar mais
Com a expansão da área cultivada, a capacidade de transformar cada hectare em resultado ganha peso na equação da safra. Eficiência operacional, controle de custos, conservação do solo, tecnologia e manejo aparecem entre os principais pontos de atenção para o produtor.
A própria projeção inicial da Aprosoja/MS evidencia esse desafio. Mesmo com quase 275 mil hectares a mais em relação à área indicada para a safra anterior, a produção estimada permanece abaixo do resultado obtido em 2025/26.
A diferença reforça a importância de decisões tomadas ao longo de todo o ciclo produtivo, desde a escolha e preparação da área até o estabelecimento da lavoura, manejo e acompanhamento das condições de campo.
Mais área, portanto, não significa necessariamente mais soja colhida. A produtividade será determinante para definir se a expansão da superfície cultivada será suficiente para compensar eventuais perdas de rendimento.
Clima pode redefinir as projeções
Entre as variáveis capazes de alterar o resultado está o comportamento climático durante o ciclo. A disponibilidade de água e o momento da semeadura são apontados pela Aprosoja/MS como fatores fundamentais para que a cultura consiga expressar seu potencial produtivo.
“O resultado dependerá das condições encontradas ao longo do ciclo. O posicionamento da semeadura e a disponibilidade hídrica são fatores fundamentais”, afirma Balta.
A estimativa de 52,4 sacas por hectare é, portanto, uma projeção inicial. O desempenho efetivo da lavoura dependerá das condições encontradas durante o desenvolvimento da cultura e da capacidade de manejo diante dos fatores que surgirem ao longo da temporada.
Crédito reduz margem para erro
Além do clima, a disponibilidade de recursos financeiros entra na conta da nova safra. Dados apresentados pela Aprosoja/MS mostram que Mato Grosso do Sul contratou R$ 1,006 bilhão em crédito rural em julho de 2026, volume 15,75% inferior ao registrado no mesmo mês de 2025.
Considerando o acumulado da safra 2025/26, a retração na disponibilidade de crédito rural chegou a 20,6% em relação ao ciclo 2024/25.
Em um sistema de produção que exige desembolsos antecipados para aquisição de insumos, operações agrícolas e demais etapas da implantação da lavoura, a redução do crédito aumenta a importância do planejamento financeiro e da gestão dos recursos disponíveis.
A capacidade de investimento também pode influenciar a produtividade alcançada no campo e, consequentemente, a distância entre as projeções iniciais e o resultado efetivamente obtido ao final da safra.
Para o presidente da Aprosoja/MS, Jorge Michelc, a nova temporada combina a capacidade de expansão da produção estadual com desafios que precisam ser considerados antes mesmo da implantação da lavoura.
“Começamos mais uma safra com a força e a capacidade de produção do produtor sul-mato-grossense, mas também com desafios que precisam ser considerados desde o planejamento. Crédito, clima, custos e produtividade estão diretamente ligados ao resultado dentro da porteira. Por isso, é fundamental que o produtor tenha informação e condições para tomar decisões cada vez mais estratégicas”, afirma.
Com área projetada em quase 4,9 milhões de hectares, a soja mantém trajetória de expansão em Mato Grosso do Sul. O desafio da safra 2026/27, entretanto, estará em transformar essa maior superfície cultivada em resultado, em um ciclo no qual produtividade, clima, custos e acesso a recursos terão peso direto sobre o desempenho dentro da porteira.
Por: Adriana Candido de Castro
