
A reação dos mercados ao resultado do primeiro turno das eleições de 2026 trouxe um sinal claro de redução da percepção de risco sobre a economia brasileira. Nesta segunda-feira (5), os juros futuros despencaram, com quedas superiores a 100 pontos-base nos vencimentos médios e longos, em um movimento associado pelos agentes financeiros ao avanço de uma agenda econômica mais liberal e à possibilidade de menor risco fiscal a partir de 2027.
Com exceção da ponta curta, os demais vencimentos da curva voltaram a ser negociados abaixo de 13%, em níveis que não eram registrados desde outubro de 2024.
O movimento ocorreu após a derrota de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno para Flávio Bolsonaro e foi reforçado pela nova composição do Congresso, na avaliação de analistas. A leitura predominante entre os investidores foi de que o resultado eleitoral aumentou a possibilidade de uma condução econômica mais favorável ao controle das contas públicas e ao ambiente de negócios.
No fechamento, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 13,53% para 13,413%. Para janeiro de 2029, a taxa recuou de 13,749% para 12,650%, enquanto o vencimento de janeiro de 2031 passou de 13,99% para 12,700%.
A queda dos juros futuros também alterou as projeções para a Selic. A curva passou a precificar cortes nas duas últimas reuniões do Banco Central neste ano e continuidade do ciclo de redução em 2027. A taxa terminal projetada para 2026 caiu de 13,47% para 13,20%, enquanto a estimativa para 2027 recuou de 13,50% para 12,50%.
Para o diretor de pesquisa econômica do banco Pine, Cristiano Oliveira, a intensidade do movimento surpreendeu o mercado.
“Provavelmente há a interpretação de que é mais provável a implementação de uma agenda mais liberal na economia. Não é um movimento artificial. O mercado já está antecipando essa agenda”, afirmou.
O economista Alexandre Espírito Santo, sócio e economista-chefe da Way Investimentos, avaliou que a diferença de 2,3 milhões de votos entre Flávio Bolsonaro e Lula contribuiu para o forte movimento dos ativos. Ele também destacou a nova composição do Congresso, com avanço da direita no Senado e o PL formando a maior bancada da Câmara, com 121 deputados.
A combinação entre resultado eleitoral e mercado financeiro é relevante porque a queda dos juros futuros reduz o custo projetado de financiamento da economia e melhora as condições para investimentos e crédito. Para o setor produtivo, especialmente o agronegócio, um ambiente de juros menores tende a ter impacto direto sobre o custo de capital e as condições de financiamento.
A reação, no entanto, ainda depende dos próximos passos. O estrategista global da Macquarie, Thierry Wizman, afirmou que a continuidade do movimento dependerá da apresentação de um plano considerado crível para as contas públicas.
O economista-chefe do banco Bmg, Flávio Serrano, também ponderou que a forte volatilidade da sessão recomenda cautela na interpretação dos ajustes.
Mesmo com a ressalva, o movimento desta segunda-feira representa uma mudança relevante na percepção dos investidores. A forte descompressão da curva de juros mostra que o mercado passou a enxergar menor risco fiscal e maior possibilidade de uma agenda econômica voltada à redução de despesas, maior previsibilidade e estímulo à atividade privada.
Para a economia brasileira, o primeiro sinal veio dos próprios preços dos ativos: depois do resultado das urnas, o mercado passou a apostar em juros menores e em um cenário econômico potencialmente mais favorável nos próximos anos.
Por: Elaine Oliveira
