
A piscicultura em Mato Grosso do Sul vive um dos momentos mais consistentes de expansão e se consolida como uma das atividades mais promissoras do agronegócio estadual. Com produção superior a 53 mil toneladas em 2025, crescimento da industrialização e avanço nas exportações, o setor ganha protagonismo dentro da estratégia de diversificação econômica do Estado.
Os números e as perspectivas foram reforçados durante o Encontro Técnico de Piscicultura, promovido pela Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) durante a Expogrande 2026, em Campo Grande. O evento reuniu produtores, indústrias, pesquisadores e lideranças públicas em torno de um objetivo comum: transformar Mato Grosso do Sul em referência nacional e internacional na produção de pescado.
Atualmente, a tilápia domina a produção estadual, acompanhando uma tendência global — somente no Brasil, o peixe representa cerca de 70% de toda a piscicultura, que ultrapassou a marca histórica de 1 milhão de toneladas em 2025. Em Mato Grosso do Sul, o estado já ocupa a 6ª posição nacional na produção de tilápia, com destaque para municípios como Selvíria, líder estadual com 9,71 mil toneladas, além de Mundo Novo e Dourados.
Ao mesmo tempo, a produção de peixes nativos também avança e já responde por 14% do volume total, evidenciando um caminho estratégico para diversificação, principalmente em regiões onde a criação de tilápia é restrita.
Durante a abertura do encontro, o secretário da Semadesc, Artur Falcette, destacou que o crescimento do setor passa pela integração entre políticas públicas, pesquisa e iniciativa privada.
“Eventos como este complementam as ações que vêm sendo implementadas para dinamizar a cadeia produtiva e impulsionar seu desenvolvimento”, afirmou.
Falcette também ressaltou a importância de uma estratégia equilibrada entre espécies. “A tilápia é uma commodity global, com preço definido pelo mercado internacional, enquanto os peixes nativos possuem características próprias e grande potencial de valorização. As ações propostas beneficiam todo o setor”, pontuou.
Essa visão é reforçada por dados técnicos apresentados durante o evento. Segundo a economista Bruna Mendes Dias, o mercado global de pescado passa por uma transformação estrutural, com a aquicultura substituindo gradualmente a pesca extrativa.

“O mercado de pescado atravessa uma mudança estrutural clara, onde a produção controlada via aquicultura substitui a pesca extrativa. A tilápia hoje é uma commodity global, e o MS está pronto para essa demanda”, explicou.
Exportação e valor agregado impulsionam o setor
Um dos principais indicadores da maturidade da piscicultura sul-mato-grossense está na mudança do perfil das exportações. Se antes o estado comercializava predominantemente peixe in natura, hoje avança na industrialização, com foco em produtos de maior valor agregado.
Em 2025, praticamente a totalidade das exportações de tilápia de Mato Grosso do Sul teve como destino os Estados Unidos, responsáveis por 99,96% das compras, movimentando mais de US$ 1,3 milhão, com destaque para filés congelados.
A tendência, segundo especialistas, é clara: o futuro da atividade está menos na produção primária e mais na agroindústria.
“A oportunidade está na agroindústria, não apenas na produção. A margem de lucro dependerá cada vez mais da eficiência e da capacidade de agregar valor dentro da própria cadeia produtiva”, destacou Bruna Mendes.
Políticas públicas e incentivo à produção
O avanço do setor também é sustentado por políticas públicas específicas. A piscicultura está inserida no Proape (Programa de Avanços na Pecuária de Mato Grosso do Sul), por meio do subprograma Peixe Vida, que oferece incentivos fiscais e financeiros aos produtores.

Entre os benefícios estão a isenção de ICMS para alevinos, redução de 50% na alíquota para juvenis e peixes adultos e carga de apenas 1% nas operações interestaduais.
Atualmente, o programa conta com 105 propriedades cadastradas e sete indústrias credenciadas. Apenas entre janeiro e abril de 2026, já foram destinados R$ 1,15 milhão em incentivos ao setor.
Para o secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico Sustentável, Rogério Beretta, o fortalecimento da cadeia passa também pela valorização dos peixes nativos.
“Metade do estado não pode criar tilápia e precisa investir nessas espécies. O Plano Estadual já contempla o melhoramento genético, com foco em produtividade e manejo”, explicou.
Segundo ele, a demanda por pescado nativo é crescente e ainda não atendida pela produção local. “Há uma demanda expressiva, e parte do pescado ainda vem de fora. Isso demonstra um mercado promissor, inclusive para exportação”, afirmou.
Potencial e futuro
Com ampla disponibilidade hídrica, clima favorável e estrutura produtiva em expansão, Mato Grosso do Sul reúne condições estratégicas para se consolidar como um dos principais fornecedores de proteína de peixe do país — e do mundo.
A expectativa acompanha uma tendência global: até 2055, a demanda por pescado deve crescer cerca de 735 mil toneladas, impulsionada pelo aumento populacional e pela busca por alimentos mais saudáveis.
Nesse cenário, a piscicultura sul-mato-grossense deixa de ser uma atividade complementar e assume papel central dentro do agro estadual — combinando escala, tecnologia, sustentabilidade e acesso a mercados internacionais.
Mais do que produzir, o desafio agora é industrializar, agregar valor e ocupar espaço definitivo no mercado global de alimentos.
Por: Henrique Theotônio
