
Apesar de o Brasil manter a posição de uma das maiores potências agropecuárias do mundo — líder global nas exportações de soja, carne bovina, carne de frango, açúcar e café, além de figurar entre os maiores produtores de milho e algodão —, colocar comida na mesa continua cada vez mais caro para milhões de brasileiros.
Os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgados pelo IBGE, mostram que a prévia da inflação desacelerou para 0,41% em junho. No entanto, os alimentos continuam sendo os principais vilões do orçamento doméstico. O grupo Alimentação e Bebidas registrou alta de 0,74% no mês, respondendo sozinho por 0,16 ponto percentual do índice geral.
Os aumentos atingem justamente produtos básicos da cesta das famílias. A batata-inglesa disparou 29,42%, o tomate subiu 17,27%, o feijão-carioca avançou 14,29% e a cebola ficou 9,54% mais cara. No acumulado do primeiro semestre, produtos como tomate, cenoura e batata mais do que dobraram de preço em diversas regiões do país.
O cenário reforça um paradoxo frequentemente apontado por economistas e representantes do agronegócio: enquanto o campo brasileiro bate recordes de produção e abastece mais de uma centena de mercados internacionais, o consumidor continua enfrentando dificuldades para comprar alimentos essenciais.
Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos 2025/26 caminha para um novo recorde, superando 330 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, o Brasil permanece entre os maiores exportadores de alimentos do planeta, posição consolidada por décadas de investimentos em tecnologia, pesquisa e produtividade no campo.
Entidades do setor produtivo têm afirmado que o problema não está na capacidade de produção, mas no ambiente econômico. Representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e de federações estaduais defendem que juros elevados, desequilíbrio fiscal, inflação persistente e a falta de medidas estruturais para reduzir os custos logísticos e tributários limitam o efeito da elevada produção sobre os preços pagos pelo consumidor.
Além da alimentação, o grupo Habitação também pressionou o índice, com alta de 0,72%, impulsionada principalmente pelo aumento de 2,04% na energia elétrica residencial após a aplicação da bandeira tarifária amarela e reajustes em distribuidoras.
No acumulado de 2026, o IPCA-15 soma 3,45%, enquanto a inflação em 12 meses alcança 4,80%, permanecendo acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central.
Na avaliação de analistas, enquanto não houver maior estabilidade fiscal, redução consistente dos juros e políticas capazes de diminuir os custos da cadeia produtiva, o brasileiro continuará convivendo com um cenário em que o país produz alimentos em escala mundial, mas o acesso a eles segue comprometendo uma parcela cada vez maior da renda das famílias. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) mostram que a alimentação representa uma das maiores despesas dos domicílios brasileiros, especialmente entre as famílias de menor renda, nas quais o peso desse gasto é significativamente maior do que entre os grupos de renda mais elevada.
Por: Amanda Coelho
