
O que há alguns anos parecia uma tecnologia distante já começa a fazer parte da realidade do agronegócio brasileiro. O biometano, combustível renovável produzido a partir do tratamento de resíduos orgânicos, vem ganhando espaço como alternativa ao diesel, principalmente pela possibilidade de reduzir custos, ampliar a segurança energética e transformar passivos ambientais em novas fontes de receita.
Nesse movimento, Mato Grosso do Sul aparece entre os estados que saíram na frente. Com forte presença dos setores sucroenergético, pecuário e agroindustrial, o Estado vem estruturando uma cadeia de produção de biogás e biometano antes mesmo de o tema ganhar força nacionalmente.

Segundo a Associação Brasileira do Biogás (Abiogás), o Brasil possui potencial para produzir cerca de 43 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano, considerando resíduos da agropecuária, indústria sucroenergética e saneamento. A maior parte desse potencial está justamente ligada ao agronegócio, com destaque para a cana-de-açúcar, produção animal e resíduos agrícolas.
Em Mato Grosso do Sul, essa oportunidade está diretamente conectada ao perfil econômico do Estado. Líder nacional em expansão da produção de biocombustíveis e com uma das maiores cadeias agropecuárias do país, o Estado tem utilizado resíduos como vinhaça, dejetos animais e subprodutos agroindustriais para gerar energia limpa.
De acordo com dados da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Mato Grosso do Sul vem incentivando projetos ligados à economia de baixo carbono, incluindo a produção de biogás e biometano como uma das estratégias para agregar valor aos resíduos da atividade rural e industrial.
O avanço do setor também acompanha uma mudança na visão das empresas. O biometano deixou de ser apenas uma alternativa ambiental e passou a ser considerado uma ferramenta de planejamento econômico, especialmente diante da volatilidade do petróleo, do câmbio e dos preços do diesel.
Para o CEO da LOTS Group, Edson Guimarães, o combustível renovável deve ser encarado como uma estratégia de redução de riscos na logística. “O biometano precisa ser visto como uma alavanca de gestão de risco e de construção de resiliência para o transporte rodoviário de cargas”, afirmou em entrevista à CNN Agro.
A avaliação ganha importância em um país onde o transporte rodoviário concentra grande parte da movimentação de produtos agrícolas. A instabilidade dos preços dos combustíveis impacta diretamente os custos de produção, fretes e competitividade do agronegócio.
Mato Grosso do Sul, com sua vocação agroindustrial, tem vantagens competitivas para ampliar essa cadeia. A disponibilidade de matéria-prima, especialmente resíduos da indústria sucroenergética e da produção animal, cria condições para que o biometano seja produzido próximo aos locais de consumo, reduzindo custos logísticos.
O Estado também acompanha o avanço de iniciativas que utilizam o combustível renovável na própria operação. Projetos com uso de biometano em frotas agrícolas, transporte interno e logística de cargas demonstram que a tecnologia já ultrapassou a fase experimental e começa a ganhar escala.
Segundo a Abiogás, a capacidade brasileira de produção de biometano deve crescer nos próximos anos com a entrada de novas plantas industriais. O setor projeta forte expansão até o fim da década, impulsionada principalmente pelo aproveitamento de resíduos do agronegócio.
Para Mato Grosso do Sul, que tem no campo uma das principais bases da economia, o crescimento do biometano representa uma oportunidade estratégica: transformar resíduos em energia, reduzir dependência de combustíveis fósseis e criar uma nova fonte de renda dentro das propriedades e agroindústrias.
O movimento que começou como uma aposta de sustentabilidade passa, agora, a ser encarado como uma ferramenta de competitividade. Estados que anteciparam essa discussão, como Mato Grosso do Sul, tendem a ocupar posição de destaque na nova matriz energética brasileira.
Por: Fabíola Camilo
