
Enquanto boa parte do agronegócio brasileiro ainda enfrenta os reflexos da queda dos preços internacionais das commodities e da redução da renda no campo, Mato Grosso do Sul segue em direção oposta. Impulsionado pela força da soja, da carne bovina e pelo avanço acelerado do etanol de milho, o Estado fechou o primeiro semestre de 2026 com o melhor desempenho dos últimos anos no comércio exterior.
Entre janeiro e junho, o agronegócio sul-mato-grossense exportou US$ 5,68 bilhões, crescimento de 12,4% em comparação com o mesmo período de 2025, quando o setor movimentou aproximadamente US$ 5,05 bilhões. O volume embarcado também avançou, passando de 9,41 milhões para 10,15 milhões de toneladas, alta de 7,9%.
Na prática, isso significa que praticamente tudo o que Mato Grosso do Sul vende ao mercado internacional continua vindo do campo. O agronegócio respondeu por cerca de 96% de todas as exportações estaduais no semestre, confirmando sua posição como principal motor da economia sul-mato-grossense.

O desempenho ganha ainda mais relevância quando comparado aos anos anteriores. Em 2024, as exportações do agro no primeiro semestre giraram em torno de US$ 4,7 bilhões. Em apenas dois anos, o Estado ampliou em quase US$ 1 bilhão sua receita com vendas externas, resultado sustentado principalmente pelo aumento da produção e pela diversificação das cadeias exportadoras.
O crescimento também mantém a trajetória observada nos últimos anos. Segundo dados do Comex Stat (MDIC), Mato Grosso do Sul praticamente dobrou sua corrente de exportações do agronegócio na última década, consolidando-se entre os principais exportadores brasileiros de soja, proteína animal, celulose e biocombustíveis.
Esse avanço ocorre justamente em um momento de pressão sobre a rentabilidade do setor no restante do país. Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Cepea/Esalq-USP mostra que o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro recuou 2,01% no primeiro trimestre de 2026. O principal fator foi a queda dos preços das commodities agrícolas, que reduziu a renda do produtor mesmo diante de uma produção maior.
Em Mato Grosso do Sul, entretanto, o aumento da produtividade e da demanda internacional compensou parte desse cenário.
A soja permaneceu como o principal produto exportado pelo Estado. Foram US$ 1,98 bilhão em vendas ao exterior entre janeiro e junho, crescimento de 30,5% frente ao primeiro semestre de 2025. O grão respondeu sozinho por 34,8% de toda a receita das exportações do agronegócio sul-mato-grossense.
O bom desempenho acompanha a safra recorde. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Mato Grosso do Sul colheu 16,74 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26, alta de 19% sobre o ciclo anterior. A produtividade atingiu média de 60,4 sacas por hectare, um dos melhores resultados da história do Estado, refletindo o clima favorável e o elevado nível tecnológico adotado pelos produtores.
Mesmo com a previsão de redução superior a 9% nos preços médios da soja em âmbito nacional, conforme estimativas da CNA e do Cepea, o aumento da produção permitiu ampliar significativamente a receita das exportações estaduais.
Outro grande destaque foi a carne bovina.
As exportações do setor alcançaram US$ 1,17 bilhão no semestre, crescimento de 47,9% na receita e de 23,4% no volume embarcado em relação ao mesmo período do ano passado. A proteína já representa 20,6% de todas as vendas externas do agro sul-mato-grossense.
O resultado chama atenção porque ocorreu mesmo com uma leve redução de 1,6% no número de bovinos abatidos no Estado, que passou de 2,12 milhões para 2,09 milhões de cabeças. A valorização da carne brasileira no mercado internacional e a forte demanda de países asiáticos, especialmente da China, contribuíram para elevar o faturamento das exportações.
Segundo a CNA e o Cepea, a bovinocultura de corte foi a única atividade pecuária brasileira a registrar crescimento no Valor Bruto da Produção em 2026, sustentada justamente pelo vigor das exportações.
O setor de biocombustíveis também reforça o protagonismo de Mato Grosso do Sul na nova economia energética.
A produção estadual de etanol deve alcançar 4,93 bilhões de litros na safra 2025/26, crescimento de 12% em relação ao ciclo anterior. O principal responsável por esse avanço continua sendo o etanol de milho.
A produção do combustível deverá saltar de 1,59 bilhão para 2,13 bilhões de litros, expansão de 33,9%, enquanto o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar permanece praticamente estável.
Mato Grosso do Sul é hoje um dos principais polos brasileiros de produção de etanol de milho e também desponta como referência nacional na produção de biometano, impulsionando novos investimentos em energia renovável e agregando valor à produção agroindustrial.
Os números demonstram que o Estado vem conseguindo ampliar sua competitividade mesmo em um cenário internacional desafiador. O avanço da produtividade agrícola, a consolidação da indústria frigorífica, a expansão do processamento de grãos e o crescimento dos biocombustíveis têm reduzido a dependência exclusiva da exportação de produtos in natura e fortalecido a agregação de valor dentro do próprio Estado.
Mais do que aumentar as vendas externas, Mato Grosso do Sul consolida um modelo de desenvolvimento baseado na integração entre produção, indústria e logística, transformando o agronegócio em um dos principais pilares da economia estadual e reforçando seu papel estratégico na segurança alimentar e energética do Brasil.
Caxerno Agro
Fontes: Famasul, Comex Stat/MDIC, Semadesc, CNA/Cepea, Conab.
