Celulose entra em fase de recuperação global, enquanto Mato Grosso do Sul acelera expansão e ganha peso no mercado

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O mercado mundial de celulose chega ao segundo semestre de 2026 diante de uma combinação que pode favorecer, ao menos gradualmente, os produtores brasileiros: a oferta global de fibra curta ficou mais ajustada, enquanto a demanda segue sustentada por segmentos como papel para higiene pessoal. No centro desse movimento está o eucalipto brasileiro — e, cada vez mais, Mato Grosso do Sul.

A avaliação consta de análise do Rabobank divulgada em agosto e repercutida pela CNN, que aponta para uma recuperação gradual dos preços da celulose de fibra curta, mesmo diante da desaceleração da economia chinesa e da expansão da capacidade produtiva em países asiáticos.

Para Mato Grosso do Sul, o cenário internacional ganha uma dimensão ainda maior. O Estado deixou de ser apenas uma nova fronteira florestal e passou a ocupar posição estratégica na indústria brasileira de celulose, sustentado pela expansão acelerada dos plantios de eucalipto, pela instalação de grandes unidades industriais e por investimentos bilionários que transformam a economia de municípios inteiros.

Entre janeiro e julho de 2026, a celulose movimentou US$ 1,83 bilhão nas exportações sul-mato-grossenses, respondendo por 25,30% de tudo o que o Estado exportou no período. O número mostra o tamanho que a cadeia alcançou na balança comercial de Mato Grosso do Sul e ajuda a explicar por que as oscilações do mercado internacional passaram a ter impacto direto sobre a economia estadual.

Um mercado global em reequilíbrio

Segundo o Rabobank, os fundamentos de curto prazo da celulose de fibra curta, especialmente dos tipos BHKP (Bleached Hardwood Kraft Pulp) e BEK (Bleached Eucalyptus Kraft), permanecem relativamente favoráveis.

O principal fator está na oferta.

Mais de 2,2 milhões de toneladas de celulose de fibra curta deixaram de chegar ao mercado mundial em 2026 em razão de paralisações, fechamentos de fábricas, conversões de capacidade e interrupções operacionais, de acordo com dados da Fastmarkets.

Na prática, isso ajudou a evitar uma oferta excessiva justamente em um momento em que a demanda apresenta crescimento mais moderado. O resultado é um mercado mais equilibrado do que se projetava no início do ano.

A perspectiva, portanto, não é de uma disparada dos preços, mas de recuperação gradual. O avanço deve ocorrer em um ambiente ainda marcado por cautela, principalmente por causa da economia chinesa e do aumento da capacidade produtiva na Ásia.

China continua decisiva — mas já não dita o mercado sozinha

A China permanece como o principal mercado consumidor de celulose e continuará exercendo influência determinante sobre os preços internacionais.

O problema é que o crescimento do consumo chinês está mais lento do que em ciclos anteriores. A indústria local avançou na integração de suas operações e ampliou a produção doméstica, reduzindo parte da necessidade de expansão das importações.

Mas a China ainda depende fortemente da celulose de fibra curta virgem importada.

Além disso, os custos internos chineses aumentaram em 2026, pressionados pelo preço dos cavacos de madeira, pela logística e pelos efeitos climáticos. Essa combinação mantém espaço para a celulose importada, especialmente quando se considera a competitividade do produto brasileiro.

É justamente nesse ponto que Mato Grosso do Sul entra na equação internacional.

O eucalipto brasileiro ganha vantagem

Enquanto produtores do hemisfério Norte enfrentam custos mais elevados e dificuldades de competitividade, a celulose de eucalipto produzida no Brasil mantém uma importante vantagem estrutural de custos.

A fibra curta brasileira é competitiva em diversas aplicações e ganha espaço diante de um mercado em que a fibra longa, especialmente a NBSK, enfrenta estoques elevados, demanda estruturalmente mais fraca e custos maiores de madeira na Europa e na América do Norte.

O movimento cria uma espécie de mudança no mapa mundial da celulose.

Empresas que operam em regiões de custo mais elevado enfrentam maior pressão sobre margens e competitividade, enquanto produtores brasileiros conseguem preservar sua posição mesmo em períodos de menor crescimento da demanda.

E Mato Grosso do Sul está entre os territórios que mais se beneficiam dessa transformação.

Mato Grosso do Sul: de nova fronteira a potência da celulose

A expansão da cadeia florestal sul-mato-grossense ocorre em uma escala que já modifica a geografia econômica do Estado.

O eucalipto está presente em 74 dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul, formando uma extensa base de fornecimento de matéria-prima para uma indústria que deixou de ser pontual e passou a estruturar cadeias inteiras de transporte, logística, serviços, mão de obra e produção florestal.

Ribas do Rio Pardo se tornou o principal símbolo dessa transformação.

O município passou a concentrar um dos maiores projetos industriais do setor no país, associado à expansão da Suzano, enquanto o avanço da Arauco amplia ainda mais a perspectiva de Mato Grosso do Sul como um dos grandes polos mundiais de produção de celulose de fibra curta.

Os investimentos não se resumem à construção das fábricas. Eles provocam efeitos em toda a cadeia: formação e manejo de florestas, estradas, transporte de madeira, ferrovias, terminais logísticos, fornecedores de máquinas e equipamentos, serviços especializados e geração de empregos.

As projeções apontam para até 93 mil empregos relacionados à cadeia até 2032, evidenciando que o impacto ultrapassa os limites da indústria e alcança diretamente a economia dos municípios.

A expansão brasileira continua, mas com mais cautela

O paradoxo do setor brasileiro em 2026 é que, ao mesmo tempo em que as empresas demonstram maior disciplina financeira, a oferta futura continua crescendo.

Suzano, Klabin e Eldorado estão priorizando geração de caixa, desalavancagem e captura de valor dos investimentos já realizados. A postura representa uma mudança importante em relação aos ciclos de expansão mais agressivos observados anteriormente.

Grandes projetos, contudo, já estão contratados ou em execução.

Em Mato Grosso do Sul, o projeto da Arauco mantém a expansão da capacidade brasileira em curso. No Rio Grande do Sul, a CMPC também representa uma nova frente de investimentos.

O ponto importante é que esses projetos não devem provocar uma pressão significativa sobre o mercado no curtíssimo prazo. A entrada de novas capacidades ocorre dentro de um cenário em que paralisações e cortes de produção em outras partes do mundo ajudaram a compensar parte da expansão.

O risco está no excesso de oferta no médio prazo

Se o curto prazo apresenta sinais de equilíbrio, o mercado não está livre de riscos.

A expansão da capacidade produtiva na Ásia é um dos principais pontos de atenção. A desaceleração chinesa também limita o potencial de crescimento da demanda.

Ou seja: a indústria brasileira possui uma vantagem competitiva importante, mas isso não significa que esteja protegida contra os ciclos internacionais.

Uma eventual recuperação mais forte da China poderia favorecer os preços. Por outro lado, uma desaceleração mais profunda, combinada à entrada de novas capacidades asiáticas, poderia voltar a pressionar as cotações.

Para Mato Grosso do Sul, esse movimento será especialmente relevante porque o Estado está aumentando justamente sua participação em um mercado globalizado.

Quanto maior a produção, maior também a exposição às oscilações internacionais.

Tissue e produtos de higiene sustentam perspectiva de demanda

Entre os segmentos consumidores, o Rabobank identifica perspectivas mais favoráveis para tissue e fluff.

O crescimento do consumo de produtos de higiene pessoal, incluindo aqueles associados ao envelhecimento da população e à demanda por produtos para incontinência, cria uma base estrutural para o consumo de celulose.

O tissue também apresenta espaço para expansão em mercados emergentes.

Isso é relevante porque significa que parte da demanda não depende exclusivamente do desempenho da indústria gráfica ou de segmentos tradicionais de papel. A celulose passa a estar cada vez mais associada a produtos de uso cotidiano e necessidades básicas de consumo.

Para Mato Grosso do Sul, o desafio agora é transformar escala em valor

A grande questão para o Estado já não é apenas produzir mais eucalipto ou aumentar a capacidade industrial.

É capturar o maior valor possível dessa cadeia.

O avanço da celulose coloca Mato Grosso do Sul em uma posição privilegiada no comércio exterior brasileiro, mas também aumenta a necessidade de infraestrutura, logística eficiente, qualificação profissional, planejamento territorial e integração entre produção florestal e indústria.

Os US$ 1,83 bilhão exportados em celulose nos primeiros sete meses de 2026 mostram que o setor já tem peso suficiente para influenciar o desempenho da economia estadual.

A tendência é de que essa participação aumente à medida que novos projetos avancem e a base florestal continue amadurecendo.

O Estado, portanto, não está apenas acompanhando o movimento global da celulose. Está participando ativamente da transformação desse mercado.

Um gigante florestal em meio à volatilidade mundial

O cenário desenhado pelo Rabobank é de equilíbrio delicado: preços com possibilidade de recuperação, oferta global mais ajustada, demanda chinesa crescendo em ritmo moderado e novas capacidades entrando no mercado.

Nesse ambiente, a vantagem brasileira está na eficiência.

E Mato Grosso do Sul está entre os principais territórios dessa nova configuração.

Enquanto fábricas do hemisfério Norte enfrentam custos elevados e algumas unidades perdem competitividade, o eucalipto sul-mato-grossense avança apoiado em escala, produtividade e investimentos de longo prazo.

A celulose produzida no Estado, portanto, já não pode ser analisada apenas como uma commodity de exportação. Ela se tornou um dos principais vetores de transformação econômica de Mato Grosso do Sul — e sua importância tende a crescer justamente enquanto o mercado mundial procura produtores capazes de entregar fibra competitiva em um cenário de margens cada vez mais disputadas.

A recuperação dos preços projetada para o segundo semestre pode ajudar, mas o verdadeiro diferencial sul-mato-grossense está em uma equação mais ampla: capacidade produtiva, disponibilidade de madeira, investimentos industriais e competitividade internacional.

É essa combinação que coloca Mato Grosso do Sul no centro da nova geografia mundial da celulose.

Por: Amanda Coelho