Entre clima e área menor, plantio da soja 2026/27 entra em ritmo mais cauteloso

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O plantio da soja da safra 2026/27 começou em ritmo mais acelerado que o registrado nos últimos anos, mas a nova temporada chega ao campo com uma combinação que exige atenção do produtor: crescimento mais limitado da área cultivada, custos e mercado ainda pressionando as margens e um cenário climático marcado pela atuação do El Niño.

Levantamento da Pátria Agronegócios, divulgado em 18 de setembro, aponta que 0,73% da área prevista para a soja brasileira já havia sido semeada. No mesmo período de 2025, o avanço era de 0,64%, enquanto em 2024 estava em 0,70%. A média dos últimos cinco anos para esta época é de 0,36%.

Os trabalhos começaram principalmente no Paraná e em Mato Grosso, dois dos principais polos produtores do país. O número, porém, ainda representa uma parcela pequena da área total e não permite antecipar o comportamento da safra. O início mais rápido do plantio está relacionado, principalmente, à janela de umidade disponível em algumas regiões.

O ponto que chama atenção nesta temporada é que o avanço da área tende a ser bem menor que o observado em ciclos anteriores. A estimativa inicial da Pátria Agronegócios indica acréscimo de aproximadamente 370 mil hectares na área brasileira de soja em 2026/27, um dos menores crescimentos projetados para os últimos 20 anos.

Isso representa uma mudança importante em relação à trajetória de expansão observada no país.

Na safra 2022/23, por exemplo, a área cultivada com soja ficou próxima de 44 milhões de hectares, segundo a série histórica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em 2023/24, passou de 45 milhões de hectares e, em 2024/25, avançou novamente, superando 47 milhões de hectares.

A produção também cresceu ao longo desse período, embora com forte influência das condições climáticas. Depois de uma safra 2023/24 marcada por problemas de chuva e calor em importantes regiões produtoras, a temporada seguinte apresentou recuperação da produtividade e voltou a colocar a produção brasileira em patamar elevado.

A diferença entre área e produtividade é importante para entender a nova safra. Mesmo com crescimento menor da superfície plantada, o Brasil pode aumentar a produção caso as lavouras apresentem bom desempenho. Por outro lado, uma temporada com problemas climáticos pode limitar esse potencial mesmo com uma área maior.

É justamente nesse ponto que o clima passa a ocupar espaço central no planejamento da safra 2026/27.

El Niño muda o ambiente de risco

O fenômeno El Niño está entre os principais fatores climáticos acompanhados pelos produtores neste início de ciclo. As projeções climáticas indicam a continuidade do fenômeno nos próximos meses, com possibilidade de influência sobre o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do país.

O El Niño não significa, por si só, quebra de safra. Seus efeitos variam conforme a região e podem ocorrer de maneira diferente ao longo do ciclo. O problema para a agricultura está na possibilidade de maior irregularidade climática, com períodos de excesso de chuva em algumas áreas e deficiência hídrica ou temperaturas elevadas em outras.

Para a soja, esse comportamento pode interferir desde a implantação das lavouras até o enchimento de grãos. Uma janela de plantio bem estabelecida não elimina o risco climático das fases seguintes.

Em Mato Grosso do Sul, onde a soja tem peso significativo na produção agrícola e também determina a janela da segunda safra de milho, o calendário ganha ainda mais importância. A regularidade das chuvas durante a implantação e o desenvolvimento da cultura influencia não apenas a produtividade da soja, mas também a possibilidade de cumprir adequadamente a sequência soja-milho.

Por isso, o avanço inicial do plantio precisa ser analisado com cautela. Uma largada mais rápida é positiva quando acompanhada de umidade suficiente e condições adequadas de solo. Mas o desempenho final da safra dependerá do comportamento do clima durante todo o ciclo.

Brasil chega novamente a uma safra de produção elevada

A agricultura brasileira chega à 2026/27 depois de sucessivos ciclos de forte produção de soja. A Conab registrou recuperação importante da oferta depois das perdas observadas na safra 2023/24, quando problemas climáticos reduziram o potencial produtivo em diferentes estados.

Na temporada 2024/25, a produção voltou a crescer e ficou acima de 170 milhões de toneladas, consolidando o Brasil como principal produtor mundial da oleaginosa.

O cenário ajuda a explicar por que a produtividade será tão importante na nova temporada. Com a área crescendo pouco, boa parte da capacidade de aumento da produção dependerá do rendimento obtido por hectare.

Há ainda outro componente: o mercado internacional.

A soja brasileira entra em mais um ciclo com forte participação nas exportações, especialmente para a China, principal comprador do grão. Qualquer alteração na produção, na demanda chinesa, no câmbio ou nos preços internacionais pode mudar a rentabilidade esperada pelo produtor.

Assim, a safra 2026/27 começa com um dado positivo no campo — o plantio está adiantado em relação à média histórica —, mas sem espaço para conclusões antecipadas.

A área deve crescer pouco, enquanto o clima terá papel decisivo para transformar o potencial produtivo em resultado efetivo. Com o El Niño no radar, a estratégia passa menos por simplesmente plantar mais e mais por acertar o momento, preservar o potencial da lavoura e acompanhar de perto as condições climáticas ao longo do ciclo.

Para o produtor, a safra começa antes mesmo da emergência das plantas: começa na leitura do clima, na definição da janela de plantio e na capacidade de ajustar o manejo diante de um cenário que ainda pode mudar ao longo dos próximos meses.

Por: Adriana Candido de Castro